Carta de Posicionamento

Somos um grupo de pesquisadores que há anos estuda e trabalha com as questões relacionadas à convivência ética e à Educação Moral em escolas brasileiras, discutindo, dialogando e ensinando como construir relações mais justas, solidárias e respeitosas entre as pessoas, a partir de investigações científicas e não pelo senso comum. No país onde a maior causa de morte dos jovens é a violência interpessoal, vítimas de brigas e desentendimentos muitas vezes banais, ensinar nossas crianças e adolescentes a resolver conflitos de maneira não violenta é mais do que um ideal. É um dever. Um compromisso de cada um de nós com a defesa da integridade das gerações futuras.

Assim, não podemos deixar de nos manifestar diante da barbárie que ocupa cada vez mais espaço na nossa sociedade. Estamos assistindo estarrecidos à ruptura do pacto civilizatório, a uma sequência de violações ao direito básico de convivermos coletivamente de maneira respeitosa, que fere profundamente a democracia e nosso Estado de Direito.

Não podemos aceitar a desvalorização e a perseguição a professores, pesquisadores, jornalistas ou a quem quer que seja. Repudiamos as ameaças à integridade física de parlamentares ou ativistas, independentemente da posição política ou pensamento ideológico. Não vamos nos calar diante do desrespeito às mulheres, da perseguição ou intolerância a homossexuais, a pessoas trans ou a quaisquer grupos vulneráveis. Não concordamos com o tratamento discriminatório e o recuo de políticas públicas que atendam aos interesses e necessidades básicas de grupos minoritários, sejam étnicos, religiosos, socioeconômicos ou culturais. Nem com o retrocesso nas regras ambientais visando favorecer a uma minoria em prejuízo à existência de comunidades inteiras e ao bem-estar de nosso povo.

Armar a população não é solução para a violência. Ao contrário, a promove. Educar crianças à distância ou fora da escola é ignorar o conhecimento científico que mostra que o desenvolvimento sociomoral e emocional é favorecido na relação cotidiana entre pares e desconsiderar a importância de professores na promoção da aprendizagem e do desenvolvimento. Não podemos aceitar que a ciência seja substituída por crenças e achismos conspiratórios, daqueles que criam suas próprias verdades e as reproduzem, sem qualquer respeito à dignidade das pessoas ou ao conhecimento dos fatos.

Manifestamo-nos contra o uso das redes sociais para divulgação de inverdades, para incitar o ódio, para consolidar a ignorância e para disseminar preconceitos, principalmente por aqueles que ocupam posições de destaque, que são pessoas públicas e cujas condutas inspiram ou legitimam ações análogas de outros.

Enfim, continuaremos firmes atuando a favor da empatia, do respeito e da civilidade entre as pessoas. Defendemos a liberdade de cátedra e o fundamental papel da escola na construção de uma sociedade em que o conhecimento, os direitos humanos e a democracia sejam valores fundamentais.

Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral – GEPEM – UNESP/UNICAMP